Entrevista com Halder Gomes – Do Ceará para Holliúdy

 

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Halder Gomes - cinema e muita ação

Foi assistindo a um filme de Bruce Lee na infância, no interior do Ceará,  que Halder Gomes encontrou suas duas paixões: o cinema e as artes marciais.

E pode-se dizer que uma paixão levou a outra. Nos anos 90, o faixa preta de taekwondo foi convidado para ser dublê em filmes de luta em Los Angeles.

No set de filmagem Halder foi aprendendo sobre o processo de produção cinematográfica. Trabalhou em produções publicitárias, longas e video music em Los Angeles, onde vivia numa ponte aérea com Fortaleza.

Em 2004, dirigiu e produziu seu primeiro filme: No Calor da Terra do Sol ( Sunland Heat). Um filme falado em inglês e rodado em Fortaleza visando o Mercado externo de home video.

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"No Calor da Terra do Sol" - artes marciais no Ceará

Ainda em 2004, Halder roda de forma autoral o curta Cine Holiúdy – O Astista Contra o Caba do Mal. A comédia mostra de forma poética as salas de cinema no interior do Ceará nos anos 70. O filme participou de 53 festivais em 13 países e conquistou 25 prêmios.

Em 2007, Halder rende uma homenagem ao seu time Fortaleza em “Loucos de Futebol” um documentário em curta metragem.

Paralelamente faz seu debut em Holywood como diretor de um longa: The Morgue (–Cadáveres 2) em que divide a direção com o  também brasileiro Gerson Sanginitto.

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Halder dirige no set de "The Morgue"

Halder alterna periodos entre a direção e a produção. Foi um dos responsáveis pelo sucesso de bilheteria de Bezerra de Menezes – Diário de Um espírito, que fez uma bilheteria de 500 mil pessoas com apenas 40 cópias no Brasil.

Essa parceria o levará a dirigir anos mais tarde – As Mães de Chico Xavier, que estreiou no cinema neste ano e é um sucesso de bilheteria.

Inquieto e inventivo, o apelidado “Tarantino do Ceará”, tem suas cartas na manga para o ano que vêm.

Está finalizando Area Q, sobre discos voadores no interior do Ceará. A co-produção com os EUA, foi rodada em Quixadá, Quixeramobim e Los Angeles,  e contou com a participação do ator americano Isaih Washington ( de Greys Anatomy) e de Murilo Rosa.

Halder tambem finaliza o longa Cine Holliúdy que foi o 1 colocado no Edital BO do MINC em 2009

Em uma entrevista para o Só Cinema por e-mail, Halder conta mais detalhes sobre essa história.

 

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"Area Q" - O ator norte-americano Isaiah Washington em locação no interior do Ceará

 

Só Cinema: 
Como surgiu a oportunidade de trabalhar nos EUA?

 

HG – A oportunidade como diretor veio através do convite da Reef Pictures Inc., dos brasileiros radicados em Los Angeles, Gerson Sanginitto e Carina Sanginitto. O Gerson é diretor e produtor e a Carina é diretora de fotografia. De lá pra cá, foram várias parcerias de co-produções, como “Area Q”, “As Mães de Chico Xavier”, “Cine Holliúdy”.

 

 

SC – De stunt você passou a exercer outras atividades como produção e depois direção, conte-nos sobre esta experiência.

 

HG - 
O trabalho de stunt proporciona um visão muito próxima da direção, elenco e diretor de fotografia. Pra quem pensa em um dia dirigir é uma ótima escola. Já a produção permite entender toda a complexidade administrativa e logísitca que é a realização de um filme. Minha formação é em Administração de Empresas, e isto foi muito útil para absorver o máximo de conhecimento nesta área e poder utiliza-los em meus projetos. Talvez esta tenha sido a principal razão para viabilizá-los, pois meus recursos sempre foram mínimos comparados aos valores de produção que estão na tela. 
A direção foi uma consequência natural das experiências vividas fora e o anseio de contar as belas e interessantes histórias da minha “aldeia”. Como não tive a formação em cinema, as experiências vividas nos sets foram minha escola prática.

 

SC – Quais as principais diferenças entre os dois países no modo de produção: uma indústria cinematográfica consolidada e uma produção inconstante?

 

HG - 
Duas diferenças são mais notáveis: a fonte dos recursos e a autoralidade dos projetos. Lá fora os recursos são privados, o que aumenta a pressão sobre os realizadores. A estrutura de produção e o ritimo impostos pela indústria impõem aos realizadores metas diárias a serem cumpridas no set. Os produtores tem um papel de maior importância na hierarquia do projeto.  
Os recursos incentivados no Brasil nos permite mais liberdade de criação, mas geralmente traz consigo o acúmulo de funções de diretor, roteirista, produtor, etc… uma vez que os projetos quase sempre são autorais. A  pesada burocracia e a morosidade da captação também é um entrave. Tudo isso tira o foco principal de um filme: o roteiro. Não importa qual é a Lei de Incentivo ou Edital. Para todos, o comprovante de endereço é mais importante do que o roteiro. O roteiro é o último a ser lido em todo o processo, pois se faltar uma vírgula, o roteiro que amanhã poderia ganhar o Oscar sequer vai ser lido. Este excesso tem que ser revisto para desafogar o realizador que já está sobrecarregado. Infelizmente as fraudes e a corrupção no país impõem mecanismos de proteção que emperram um maior volume de produção. Os dois caminhos tem seus prós e seus contras. Mas não podemos esquecer a fragilidade do nosso sistema, que depende de questões políticas e não de mercado. Mas no final, independente de onde seja, fazer cinema sempre é e vai continuar sendo uma complexa atividade. No nosso caso, específico, no Ceará, temos a dificuldade logísitica pela distância do Rio e São Paulo, onde estão os equipamentos e laboratórios. Filmar em Los Angeles, por exemplo, tudo está ao seu dispor, em compensação o custo e as dificuldades de locações são altíssimas. Mas é sempre assim, como um lençol curto: cobre uma parte e descobre outra.

 

SC –  Você está terminando uma co-produção filmada no Ceará, como foi

essa experiência?

 

HG - Foi uma experiência interessante, que serviu de laboratório para alertar aos nossos governantes que temos, além de locações, temos nossas histórias a serem contadas. O filme em questão é o “Area Q”, que fala das recorrentes histórias de contatos imediatos no interior do Ceará. É um co-produção Brasil/EUA, entre as empresas Reef Picures Inc., ATC Entretenimentos, Sophia Filmes, Estação Luz Filmes e Boa Vontade Filmes. A produção e direção é do Gerson Sanginitto. “Area Q” foi um projeto atraído para o Ceará devido as locações surreais da região (Quixadá e Quixeramobim) e pelas histórias contadas pela população local. Daí entrei como co-autor/co-produtor e produtor executivo. Unimos vários parceiros e esforços e tiramos o projeto da sinopse em março de 2009 para o set em setembro de 2009. Sem nenhum incentivo fiscal ou edital. Tivemos um elenco formado por atores internacionais, como o Isaiah Washington (Grey’s Anatomy), e nacionais, Murilo Rosa, Tania Khallil e Ricardo Conti. Vários atores cearenses também fizeram parte do elenco, assim como a equipe técnica local. A Panavision dos EUA nos cedeu todo o equipamento de câmeras e lentes, e tivemos, através de um intercâmbio, alguns de nossos profissionais fazendo parte do crew das filmagens em Los Angeles e vice-versa. Foi um troca muito interessante com participação artística, inclusive. Os efeitos visuais, por exemplo, foram feitos pelo cearense Marcio Ramos (Vida Maria). Foi um projeto que trouxe ótimos frutos para a nossa produção local.

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Halder Gomes e Vanessa Gerberlli no Set de "As Mães de Chico Xavier"

 

 

SC-  Como você divide o tempo entre Brasil e EUA?

 

HG - Ultimamente tenho ficado mais no Brasil, pois venho de uma maratona de 3 longas (Area Q, As Mães de Chico Xavier e Cine Holliúdy) em 12 meses, entre 2009 e 2010. As etapas seguintes de pós-produção e lançamento e desenvolvimento de novos projetos acabam impedindo de passar mais tempo fora. Também estou comprometido com os próximos projetos da Estação Luz Filmes. Mas já retomei os contatos com um grande produtor em Los Angeles sobre a possibilidade de fazer um remake do “Cine Hollíúdy” para o mercado americano. 2012 será um ano de lançamentos, festivais e prospecção nos EUA. Mas, em média, vou à Los Angeles pelo menos uma vez por ano, sempre os mês de novembro para o American Film Market.

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SC – Você vai frequentemente a Festivais nos EUA, quais foram os últimos
e o que te impressionou?

 

HG - 
O mais recente foi o Hollywood Film Festival, que tivemos o “Area Q” selecionado para a mostra competitiva e nomeado ao prêmio de Melhor Filme. Foi muito gratificante ver o filme na tela do tradicional Arclight Cinemas, na Sunset Boulevard e ver nossos nomes no catálogo do evento. É que ralamos tanto que as vezes não paramos pra curtir essas pequenas coisas que simbolizam todo este esforço pra conseguir um lugar neste difícil e competitivo mercado. Neste festival, em específico, gostei de um filme chamado “Answers to nothing”, que tem uma pegada estilo “Crash” e retrata uma intrincada história do cotidiano americano.

 

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Isaiah Washington e Tânia Khalil no set de "Area Q"

 

SC – Você acha que o Brasil pode se tornar um grande produtor de filmes para o exterior, algo como uma indústria?

 

HG - 
Sim, mas ainda temos muito chão pela frente pra competir com fortes concorrentes, como a Espanha, França, Coréia, Canadá, China, Japão, Alemanha, Argentina, etc…Não somente pensando em produções para o exterior como foco principal, mas para nosso mercado, principalmente. Os nossos sucessos daqui serão os filmes que despertarão a curiosidade do mercado externo. O Brasil tem muito potencial, mas ainda dorme em berço esplêndido em diversas áreas. De uma forma geral, nosso trabalho de film commissions ainda engatinha (exceto por poucos estados), a insegurança ainda é um entrave para atrair projetos, somados a nossa burocracia e altos custos de serviços, impostos e falta de uma política de rebates para produções estrangeiras. Para pensar em indústria é necessário infra-estrutura e RH (mais estúdios, mais casas de finalização, mais equipamentos, mais profissionais), atrair capital estrangeiro para compor co-produções, mais investimento privado, mais salas de exibição, menos burocracia na busca por recursos incentivados, condições mais justas aos produtores nos modelos de negociações com distribuidores, e, claro, mais recursos que possam aumentar o volume de produções. Muitos países disputam através de suas políticas de incentivo e film commissions os recursos de investidores que buscam lugares para filmar onde possam aumentar seus “production values”. A entrada deste capital e parcerias geram melhoria na mão de obra do local e fomenta os serviços. A médio prazo a qualidade de produção aumenta. Tudo isso soma a produção local. Não é coincidência que todos os países que estão no topo da produção mundial tenham os valores acima citados nas suas políticas audiovisuais. Não vejo o Brasil lutando por estes recuros. O talento está aqui, as histórias, as locações, mas muito pouco do que temos pra mostrar chega às telas. Mas estamos bem em muitas áreas. Nossos filmes disputam nas bilheterias com os blockbusters estrangeiros, vencem festivais importantes no exterior, conseguem distribuição internacional. Nossos festivais são de alta qualidade e levam ao público as produções que não conseguem espaço no circuito comercial, dentre muitas outras coisas de se orgulhar. Nossos atores e diretores são convidados para grandes produções internacionais….Estamos no caminho certo, e creio que o tempo e a maturidade levará o Brasil a um lugar consistente dentre os grandes produtores mundiais de cinema.

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